VIDE: mneme Theou
RECORDAÇÃO DE DEUS
Excertos traduzidos por Antonio Carneiro de "Le soufi marocain Ahmad ibn Ajiba et son miraj"
Quando se fala de « rememoração » (sem precisar), é a menção pela língua (dhikr al-lisan) que se quer designar. Esta forma de rememoração é um dos sólidos pilares da via rumo à união com Deus (tariq al-wusul). Ela é o emblema da iniciação (manshur al-walaya): aquele que recebe (ulhima) o dhikr é entronizado; aquele que o perde é destituído.
A rememoração do vulgar se faz por meio da língua, aquela da elite no coração (jinan) e aquela dos eleitos da elite no espírito (ruh) e o segredo íntimo (sirr). Este último é a contemplação, a visão direta (al-shuhüd wa'l- iyan): rememora-se Deus em toda ocasião e em toda coisa, isto é, que se conhece Deus em tudo. Nesse ponto, a língua é surpreendida de mutismo e o homem fica como assombrado no lugar da visão (fï mahall al-iyan). Nesta estação, a rememoração da língua torna- se fraca e vã, como disse o poeta:
Como se um vigilante enviado por Ti me dissesse: « Guarde-te, infeliz, de pronunciar o nome! (tidhkar)
Tu não vês Deus (a Verdade) então que Seus signos apareceram e que a Realidade total comunicou-se a ti? »
Al-Wasiti fez alusão a esta estação por essas palavras: « Aqueles que pensam a rememorá-Lo (al-dhakirun fi dhikrihi) fazem prova mais de inadvertência (ghafla) que os que esqueceram de rememorá-Lo; pois Sua rememoração é outra coisa migalha de Ele »( fdhikruhu simah ).
A definição de Ibn 'Ajiba apareceu singularmente sóbria se se pensa na imensa literatura que foi consagrada a esta noção chave do sufismo. Entretanto, indica nisso que todos os aspectos essenciais: o aspecto técnico (dhikr da língua), o aspecto de concentração e de absorção (dhikr do coração) e, enfim, o estado final de contemplação espontânea a qual o homem não tem mais nenhuma parte (dhikr do segredo íntimo).
Deve-se à L. Gardet (art. « Dhikr » em E.I.; Revue Thomiste, 1952, 3 e 1953, 1; A Mística muçulmana, em colaboração com M. M. Anawati, Paris 1961) os estudos bem documentados sobre as formas exteriores e a experiência interior do dhikr, fundados não somente nas fontes muçulmanas e algumas descrições de orientalistas e viajantes, como também na confrontação com as técnicas extras islâmicas (“nemboutsou” japonês, “japa yoga” da Índia, oração de Jésus dos hesicastas). Encontrar-se-á na última das obras precipitadas uma descrição das três grandes etapas do dhikr mencionadas aqui por Ibn 'Ajiba (estabelecida sobre tudo conforme o Miftah al-falâh de Ibn Ata Allah de Alexandria).
Dentre os textos disponíveis em francês que tratam mais eloquentemente do dhikr, é necessário citar les extratos do Tanwïr al-qulüb (« A Iluminação dos corações») de Muh. Amin al-Kurdi al-Naqshabandi (m. 1332/1914) reproduzidos em apêndice à Pequena Filocália (Paris 1953, pp. 317-336) e a documentação recolhida por M. Molé nas Danças Sagradas (Paris 1963, pp. 147-278), notadamente nas duas modalidades particulares de dhikr que são a audição espiritual (sama) e a dança (raqs, dawr) (v. Molé Dhikr).
Os fundamentos do dhikr no Alcorão e o hadith são recordadas por Titus Burckhardt em sua Introdução...(pp. 100-106) que sublinha o caráter « sacramental » da Palavra divina, « quintessência dos ritos muçulmanos », e o faz que o sufismo feito por dhikr « o meio central de seu método» porque «... à união ao Nome divino torna a União (al-wast) ao próprio Deus ».
Consultar também o excelente « Estudo sobre o sufismo » d'Abyari, sufi de obediência shadhilite tendo vivido no último século, traduzido por M. Arnaud (Alger, 1888). O dhikr é aí chamado de « pivot » (umda) da via mística, e as modalidades e condições foram cuidadosamente analisadas (pp. 31-42).